Pelo dia

15/11/2011

Nós deitamos na grama úmida do parque enquanto desamarramos os sapatos
Jogamos nossos sapatos na grama e pisamos nas folhas secas
Deixamos a cidade e os carros e metrôs lotados para trás
E pelo dia todo nenhum celular irá tocar
E pelo dia todo uma aura lilás

Parece faltar um pouco de cor em tudo
Porém, se você fizer um movimento
Posso pintar o quadro desse momento
E talvez se nós pudermos ficar mais um pouco…

Essa árvore daria uma boa canoa
E navegaríamos nesse lago
Mas o sol quase fere sua pele branca
E essa árvore dá uma boa sombra

Posso mostrar o orquidário
Posso te falar do quadro que quero pintar
Posso te falar dos meus sonhos e do futuro certo
Porque parece faltar um pouco de cor nisso tudo sem você perto

Nós podemos nos esconder descalços como uma ninfa e um sátiro
Jogamos nossas esperanças mais verdes no lago e sonhamos
Deixamos as lembranças e amarguras na cidade
E pelo dia todo vou te ouvir suspirar
E pelo dia todo vou te ouvir suspirar

Para Pamela

Corpo e alma juntos

25/08/2011

Em um trabalho, o tabu era que Bianca* era, falando da forma mais gentil possível, uma completa, asquerosa, arrogante, estúpida e tapada filha duma puta, uma escrota idiota. Mas isso era tabu, não podia ser mencionado por mais que a incapacidade e falta de competência de Bianca saltassem à vista de qualquer um, até dos mais inexperientes.

Infelizmente, ninguém podia demiti-la, nem mesmo o chefe da empresa. O que aconteceu então é que ela tomou uma função essencialmente política e não-funcional: seu trabalho era lidar com clientes, tratá-los bem, informá-los, servir-lhes paparicos, tomar café com eles, etc, e todas as outras pessoas, de forma dividida, faziam o trabalho que ela deveria realmente fazer. O resultado final foi que, quando a empresa teve problemas, eles contrataram um “consultor administrativo”, que é umas dessas pessoas que servem para te dizer o óbvio. O que acontece é que ele passou a promover as pessoas com trabalhos ”impecáveis”, aquelas que faziam efetivamente as coisas, que não tinham errado nunca em suas funções, que eram super-trabalhadores, comprometidos, engajados, que faziam aquilo que era da função e iam mais além — resultado: uma vez que Bianca nunca teve um projeto importante, uma vez que ela não fazia nada efetivamente, colocando as pessoas para fazerem as coisas no lugar dela, quando os números foram analisados, ela era a única empregada da empresa que tinha notas impecáveis, e assim se concluiu que ela deveria ser sócia e, de tal modo, uma segunda chefe da empresa.

Sua primeira ação, claro, foi demitir todos aqueles que ela não “ia com a cara” ou qualquer pessoa mais inteligente que ela. O meu tabu para ela era que eu era um não-cristão e levava minha edição de “O Anticristo” pro trabalho. Vez ou outra eu passo em frente àquele prédio e dou risada…

24/08/2011

Sidarta, por que essa alegria pela manhã e essa primeira nobre verdade pela tarde? A vida para você é uma carga pesada? Pois então não passas de um bom burro de carga.

26/06/2011

Nunca suportei a vida sem inocência, sem negar e dizer ao mesmo tempo Sim a tudo e todas as coisas mais terríveis que dilaceram minha alma. Neste inverno, o mais tenebroso que já enfrentei, a inocência brotou, com a voz dela, no meio dos dias ensopados de névoa; e eu, mais morto que os próprios mortos, ressurgi do meu afastamento. Minhas cargas, todas pesadas, foram deixadas para trás, me tornei senhor do meu próprio sofrimento, e por que não haveria de me deixar agora dominar pelo amor?

Se ela disser pra eu ir, eu irei correndo agora, irei correndo pra estar lá, seja atraído por um grito de angústia ou uma canção. Eu danço por dentro, minha alma dança com o cosmo e o cosmo sou eu por completo – sou um sol queimando em algum lugar na constelação de Capricórnio ou uma estrela se formando do pó dentro de algum turbilhão, suavemente, muito suavemente… Sinto então que, homem feito, vou aprender agora uma nova brincadeira, uma nova forma de amor.

05/06/2011

Provavelmente isso tudo vai terminar comigo metendo um teco de chumbo na miolera. Que merda de saída tenho? Fui eu, eu, porra, que busquei por isso. E não era eu que sempre dizia que a vida era o meio e a porra toda? Caralho…

Beleza, beleza, vamos com calma…

Quer você encare isso aqui como um diário ou como um belo romance, como uma longa carta suicida ou como um relato desesperado, nada muda a verdade, que é apenas uma: a vida é apenas o meio da porra toda, não o fim. Essa foi minha busca desde o começo. Caralho, é foda – é claro que eu não busquei por isso conscientemente, mas tampouco fiz a merda toda pra fazer o contrário ou pra retroceder; caceta… como se fosse possível retroceder no tempo… Mas foda-se, a merda tá feita, e agora? Agora é encarar a verdade puta e crua: quer você trate a verdade como uma puta, ao seus gostos e caprichos, ela continua a fazer valer a lei dela. Eu podia começar esse relato de forma mais coesa e o escambau, dizendo que sou um jovem bem-sucedido até onde a vida me possibilitou com suas “grandes oportunidades”, ou seja, aceitar tudo calado e engolir a porra viscosa dessa sociedade do caralho e ainda agradecer por isso, dizer que sou um jovem inteligente, que tem seu carro, sua casa, sua namorada, seu emprego de froçada rotina diária, mas foda-se isso tudo. Isso era eu, agora sou um outro. E pouco me importa quem vai ler ou deixar de ler isso aqui, tampouco me importa a minha verdade ou a verdade alheia, o que importa é dizer, apenas dizer, como um cu falante, dizer.

Caralho, vá se foder, apesar disso tudo, eu tô muquiado num muquifo do caralho a essa hora da madruga, vai vendo… Logo, eu, um puta endinheirado, um playboyzinho arrogante bem-encaminhado pelos valores da caucasiana classe média paulistana, metido num barraco no meio do mato num cu de mundo com o marzão atlântico à frente. Porra, ao menos isso, ao menos o mato e o mar…

 

O que há de mais pesado?

21/05/2011

“O que há de mais pesado?” — assim pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se como o camelo que quer que o carreguem bem. “Que há mais pesado, heróis?” — pergunta o espírito sólido — “a fim de eu o deitar sobre mim, para que a minha força se recreie?”

“Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer? Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sensatez?

Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela celebra a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?

Ou será sustentarmo-nos com bolotas e ervas do conhecimento e padecer de fome na alma por causa da verdade?

Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?

Ou será submerjirmo-nos em água suja, quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos?

Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?”

O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto.

No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.

Assim falou Zaratustra

Café e traição

16/05/2011

Creio que foi ontem mesmo que eu estava com um papo com a Sara – falávamos de várias coisas ao mesmo tempo, de lagos e bancos, de café e palestras, até que eu citei um caso para analisarmos a psicologia do traído: vi numa reportagem sobre traição o relato de uma mulher que, casada, sabia que levava várias galhas do maridão, de forma que isso foi até mesmo provado numa conversa que ela ouvira entre ele e o cunhado, onde ele expunha abertamente as putarias nas quais se metera, sem nenhuma demonstração de remorso, pelo contrário.

Pois bem, um belo dia, desses em que nada parece ser diferente, a moça estava numa festa e conheceu um cara – rolou, disse ela. Ela traiu o marido também. Bom, até aí nada demais, vão me dizer, ela simplesmente fez o que a maioria faria, talvez ela nem sentisse mais nada pelo marido muito antes disso aocntecer, mas o que me deixou intrigado por alguns dias foi quando o repórter perguntou se ela havia feito isso como vingança. Ah… a vingança… Ela disse que não, que nunca havia passado isso pela cabeça dela, que simplesmente “aconteceu”, que foi algo tão natural quanto da vez em que ela conheceu o próprio marido, que em nenhum momento ela havia pensado em se entregar a outro homem apenas para pagar com a mesma moeda.

Eu acho a palavra vingança muito desvalorizada, asim como acontece com tantas outras, como ciúmes, preconceito, inveja, etc – tão logo ela é dita, já parece ser carregada de impressões e preconceitos. Acho que a vingança foi estigmatizada, difamada pelo cristianismo, aquela coisa de dar a outra face e tudo mais; porém, analise bem, assim como não há apenas uma forma de amor, ou uma forma de inveja, também não há apenas uma forma de vingança. Mas a vingança, ou a palavra vingança, para muitos parece ser um manto negro onde não se deve chegar perto, um portal pelo qual não se deve passar – e dessa forma a vingança é aparentemente (e essa palavra, “aparentemente”, é muito importante aqui) não praticada.

Quantas vezes praticamos a vingança por dia sem notar, de forma que ela nos aparece disfarçada ou mesmo diluída? Vingança de pessoas e até objetos inanimados. Talvez existam três níveis básicos de vingança, que vou expor aqui de forma resumida: a primeira delas é a vingança como instinto de sobrevivência básico. Nesse tipo de vingança, a principal meta é fazer cessar um perigo iminente, próximo, tangível, real, bem-definido, no aqui e agora. Mas, pergunto: isso é realmente vingança ou apenas instinto de conservação? O que age aí não é a intenção de reaver um dano (revenge) uma vez que não há sequer tempo para analisar se algo foi perdido ou danificado – e reaver um dano causado é o que caracteriza basicamente a vingança, como veremos no segundo caso.

O segundo tipo de vingança é aquele em que se leva um tempo analisando a forma de reaver um dano causado, de forma que a princípio essa forma de vingança une-se àquela forma primária de vingança, ou seja, é quase imediata, ainda se está no calor da discórdia, ainda não se distingue bem o que foi perdido/danificado e as consequências disso, de forma que o mais importante nesse caso é simplesmente fazer doer onde é mais sensível. E se leva um pouco de tempo pensando nisso, mas não tanto tempo para prever se o adversário por sua vez reagirá ao atingirmos onde ele é mais vulnerável, onde sofrerá mais. Na primeira vingança o que ocorre é o simples medo, na segunda é a intenção de causar dor simplesmente, de modo que se fica indiferente ao que o nosso adversário, aquele que nos causou dano, fará com relação a essa vingança. Isso demonstra duas coisas: que desprezamos o que nosso inimigo fará como réplica a essa nossa vingança e também demonstra que não o tememos, não temos medo de nenhuma retaliação futura. E aqui entra a parte mais interessante dessa análise: a vingança como reparação e demonstração de desprezo: é por esse motivo que muitas pessoas veem nessa forma de vingança um meio essencial para reaver o dano por mais que existam tribunais e a justiça para reaver a perda: que importa o que perdemos, o dano causado? Queremos com a vingança demonstrar que não tememos – e para demonstrar isso, é preciso perigo, o perigo envolvido na execução de uma vingança mostra que não tememos o perigo nem suas consequências, de forma que uma vingança feita através de meios civilizados, sem envolver perigo, ou seja, em tribunais, com regras definidas, sem perigo, sem desafio, não é capaz de fazer demonstrar ao nosso inimigo que não o tememos.

Então temos duas formas de vingança quase contrárias: na primeira é o medo imediato que faz a gente querer se vingar, na segunda, é exatamente a tentativa de demonstrar que não tememos nada. Só nessas duas espécies já vemos como é idiota tentar jogar todos esses atos dentro da mesma palavra “vingança”, de tão diferentes são suas causas, meios e consequências. Além disso, é preciso, nessa segunda forma de vingança, analisar o nível de honra e de coragem que a pessoa tem: se ela não tiver nenhum sentimento de honra, se sentirá pouco motivada a se vingar, de modo que sua vingança pode ser algo passageiro, básico, ínfimo ou nem mesmo existir. Se se sentir mais corajoso ou covarde, mais forte ou fraco aos seus olhos e aos olhos dos espectadores, preferirá uma vingança equivalente a essa imagem. Há também o caso onde a vítima vê o inimigo e os espectadores como desonrados – logo, seriam incapazes de reaver o dano causado à sua própria honra, e dessa forma a vingança não se realiza ou se realiza como desprezo. Por fim, pode ser também que ame aquele que o ofende (caso do cristianismo) e a vingança aqui se dá como uma forma de se dizer que aquele que causa dano é incapaz de sentir compaixão, de forma que sua imagem fica manchada (daí a vingança).

E qual seria a vingança mais completa? Bom, é aquela que se dá com a previsão do dano futuro, é o xeque-mate, é colocar nosso inimigo numa posição incapaz de reagir à vingança que vamos infligir para reaver o dano causado. Essa forma de vingança é sempre pública, é a vingança onde participa a maior parte possível de envolvidos na análise do caso e da punição: a vítima que quer se vingar quer reaver sua honra publicamente, e isso pode se dar através de tribunais ou não, mas sempre será uma vingança pacífica, uma vingança onde não se precisa demonstrar que não se teme, pelo contrário, ela quer somente intimidar, ou seja, quer mostrar ao inimigo que não há saída, que qualquer coisa que ele faça, agora, não surtirá efeito. É claro que nessa forma de vingança os outros elementos também participam: queremos reaver um dano, queremos também nos conservar, queremos reaver nossa honra, queremos evitar um dano futuro e queremos também mostrar aos espectadores que ali há um dos nosso que não merece conviver com nossas regras. Essa forma de traição, a mais longa, a mais demorada, é também a que mais une em si todos os elementos, de forma que pode-se passar anos sem que a vítima saiba exatamente o que quer, de que forma quer reaver o dano causado – e isso faz com que as atitudes daquele que se vinga sejam muitas vezes contraditórias e irracionais, mudando constantemente.

Agora, em qual situação poderíamos encaixar o caso da moça sobre a qual comecei esse post? Creio que em nenhuma delas, agora realmente acho que ela não pensou em se vingar. Não é possível encaixar a atitude e as palavras dela em nenhuma forma de vingança: ela não reagiu espontaneamente, de imediato, tampouco reagiu para demonstrar ao marido que não o temia ou que não se importava em lhe causar sofrimento e tampouco manchar sua honra – ela praticou o ato de forma descompromissada, sem planejar, sem expor nada aos espectadores.

A atitude dessa mulher pra mim demonstra apena suma coisa: que no amor, se nos vingamos conscientemente, de forma lúcida, se nos vingamos como reação a algum dano causado, isso demonstra que ainda há amor; pelo contrário, se uma atitude que parece vingança foi na verdade praticada de forma impensada, sem planejar, sem ser feita como reação a algum dano, isso demonstra que realmente não havia mais nada, nem ódio nem amor.

A pergunta que fica no ar é: onde entra o café nessa história? Bom, Sara descobriu que o café deixa a pessoa mais alerta, e não mais concentrada, como se pensa…

04/05/2011

Provavelmente isso tudo vai acabar comigo metendo um teco de chumbo na miolera.

Nina

22/04/2011

Nessa época eu tinha acabado de fazer 18 anos, e não podia beber porque tomava religiosamente o fodido Roacutan pras espinhas herdadas do meu pai. Mas isso foi bom praquela noite, pois eu sabia que meus amigos todos iam beber, fazer merda pra caralho e não lembrar de nada no dia seguinte, de modo que das próximas vezes que a gente se encontrasse eu teria minhas histórias pra contar, tudo de forma lúcida e detalhada. E foi isso o que aconteceu na casa daquela coroa que a gente conhecia brevemente das histórias do Eduardo, cunhado do Fernando, meu chapa. Junto com Túlio, os três namoravam três irmãs cabecinhas-ocas dali do bairro.

Bom, essa noite estávamos no Santana lotado, emprestado pelo sogro (apelidado pela gente de “Fanho”, porque de fato era fanho) do Túlio, que dirigia. Ficamos por volta de meia hora parados depois de levar um enquadro da polícia, pois o Fernando inventou de zoar os coxinhas ligando a luz do carro e batendo o cartão em cima da carteira, como se arrumase uma carreira de farinha – quando a barcona passou, jogou o farolete e começou a berraria na hora; foi engraçado ver a cara dos PMs quando não encontraram nada, apesar de terem embaçado pra caralho pra cima do Carlos, que é preto – todo o resto, bom, na visão dos PMs, apenas um bando de boyzinhos caucasianos estudantes e bem-encaminhados pelos valores familiares da classe média paulistana.

Depois de quase cada um descer do carro desistindo de qualquer coisa por falta de opção, já quase à uma e meia da madruga, o Eduardo disse que poderíamos ir na casa da tal Nina, a coroa. Carlos foi o que ficou mais empolgado e até pediu o celular pra ligar, pois tinha fetiche por coroas – não balzacas, coroas mesmo, dos quarenta pra cima. Eduardo ligou, mas ela não atendeu – que fazer? Bora pra casa dela, bater na porta e esperar algo, afinal, o que a gente tinha a perder? – porra de nada.

Nina morava numa rua paralela à avenida Indianápolis, conhecido reduto travestístico do submundo paulistano – e todos pensamos: se não der certo, podemos ao menos zoar com as putas e os travecos e quem sabe arrumar algo pra não passar a noite batida. Chegmos à casa,  Eduardo desceu do carro e disse pra gente ficar nele, pois não era pra Nina ver quantos amigos ele estava trazendo – era uma tática: “Fala, Nina, beleza? Tava passando aqui com uns amigos meus e decidi passar aqui pra ver como você tava” – puta papo-furado, mas como ela era mó vadia, segundo o Eduardo, ela entenderia o pragmatismo duma conversa fiada que nem essa e não se ofenderia. Eduardo desceu, tocou a campainha e esperou – nada. Depois de mais uma tentativa, desistiu e voltou pro carro. Decidimos comprar cerveja no Pão de Açúcar ali próximo, tentar ligar mais uma vez e passar lá na volta.

Quando estávamos indo, passamos por alguns travestis e Carlos ficou ainda mais empolgado, disse que o legal de comer um travesti é que quando ele tá pra gozar, ele aperta o cu e o gozo do cara que tá socando no traveco fica mais foda ainda. “Parece que a porra vem lá do final da espinha, tá ligado? Ceis tem que ver que da hora”. Quando chegamos no mercado, tinha um Golf vermelho zeradão e sem placa parado com duas vadias cavalonas próximas dele – todos pensamos que eram putas, claro, mas não estavam vestidas de forma vulgar nem nada, então consensualmente decidimos não mexer, pois vai saber que porra essas mulheres são, com quem estão e tudo mais. Porém, o Eduardo, que havia entrado no grupo há pouco tempo (apenas por namorar uma daquelas irmãs), não era safo e não manjava das nossas manhas, do nosso tipo de humor e tudo mais; como todo novato, queria mostrar aquilo que não era pra se encaixar, fazer coisas da hora pra que a gente aceitasse ele no grupo normalmente; sendo babaca desse jeito, ele sempre extrapolava alguns consensos do grupo – e nesse momento não foi diferente: começou a chamar as minas de gostosas, chamando elas prum rolê e coisas assim. Quando pra entrada do mercado, havia dois caras, tipos boyzão bombadinhos, cabelo espetado de gel, correntinha no pescoço, calça e camisetinha polo Lacoste apertadinhas, Nike Shox no pé – aqueles brancos babacas que curtem pagode e namoram minas vadias que geralmente fazem faculdade de turismo – pareciam irmãos de tão iguais que se vestiam, os ridículos.  Começaram a encarar a gente d elonge, e não arredaram pé quando a gente passou por eles. Foi então que Eduardo, babaca como ele só, quis se aparecer de novo: começou a falar pros caras que se os caras quisessem, ele tinha “pra trocá”, entre outras coisas – os caras não disseram nada e só andavam pra lá e pra cá, seguindo a gente lentamente pelas cabeceiras dos corredores. Fernando, puto como só ele, decidiu que a gente não ia comprar nada porque ia arrumar briga com os caras – falou pra gente sair de dois em dois depois que ele passasse pelos caras, pois aí as câmeras mostrariam que foram os caras que foram pra cima dele, um só, querendo briga, caso todo mundo fosse pra DP. Ele saiu, peito estufado e com aquele andar meio ridículo dele. Passou pelos dois playboys, que não disseram nada. Então quando foram passar o Carlos e o Eduardo, os caras falaram alguma coisa pro Eduardo, o Fernando voltou na hora, já preparado pra briga – todos nós de imediato fizemos uma rodinha nos caras, mas quando todo mundo percebeu que os dois eram namorados ou sei lá que porra das duas minas do Golfão vermelho, o Eduardo perdeu a razão – e ninguém tinha vontade de defender o babaca – pela cara do Fernando dava pra perceber que ele arrumaria briga de graça e sem motivo, brigaria por prazer apenas, mas de forma alguma brigaria pra defender o Eduardo, que a essa altura se defendia dum jeito todo malandrão. Foi então que um dos caras, o mais velho, disse: “Você não tinha dito um barato aí que se quisesse ce tinha pra trocá?”. Ao que o Eduardo disse: “Velho, eu tenho pra trocar com qualquer um, basta me dar motivo”. O cara: “Ce troca cuma dessas então?”, tirando na mesma hora da cinta uma Glock pretona – todos olham pro Eduardo: pretificado, o trouxa, começou a cagar de medo e gaguejar, pedir desculpas. Então o cara deu um conselho pra ele: “Nós dois somos da Civil, tá vendo? Então a gente sabe com quem a gente lida, por isso que tô te dizendo pra se cuidar, porque se é um maluco cheirado aí, um traficante ou qualquer merda, ele te dá uns pipocos aqui no mercado mesmo e foda-se, tá ligado?”. Beleza, beleza – depois de várias desculpas, entramos no carro e fomos embora sem cerveja nem nada. Na volta, o Eduardo, querendo mais uma vez demonstrar ser fodão, começou a se gabar: “Os caras eram mó otários, cê viu ele sacando a Glock? E se eu quisesse pegar da mão dele ali na hora e meter o ferro na cara dele? O maluco nem sabe segurar uma arma” – ninguém deu um piu. Não vendo resultado, ele começou a zoar com os travestis pra ver se a gente achava graça. O Carlos pediu pra gente parar perto de um, como que dando um toque pra gente que ele queria ver como o Eduardo ia lidar com aquilo, se ele manjava das coisas. O travesti chegou perto do carro, Eduardo estava no passageiro e começou a conversar com o traveco: “Nossa, linda, quanto fica a diversão comigo e meus amigos aqui?” – e nessas e tal até que ele estranhamente começa a tentar levantar a saia do travesti que, chegando mais perto, deixa ele inclusive passar a mão no pau dele e tentar levantar a calcinha e tudo mais. Todo mundo se olhou dentro do carro, pensando que porra era que o Eduardo tava fazendo tentando massagear um caralho. Foi quando sacamos na hora: Eduardo tava achando que a porra do traveco era uma puta. Começamos a zoar na hora, sem perdão – definitivamente, ele era um cabação que não manjava de nada.

Voltamos à casa de Nina e repetimos o procedimento – dessa vez foi a porta da varanda que se abriu, saindo de lá uma mulher de roupão branco, com cabelo liso, estilo channel, com luzes claras. Trocou algumas palavras com o Eduardo e disse que ia se trocar para descer e abrir a porta. Nisso todos já tínhamos saído do carro ao sinal do Eduardo e aguardávamos na porta. Ela abriu a porta, nos cumprimentou e trocou algumas palavras com o Eduardo – foi então que, indiretamente, questionou o que queríamos ali – comer a boceta dela, diriam todos – “Ah, apenas conversar, tomar alguma coisa…”. OK, disse ela, mas cadê as bebidas? Foi então que voltamos ao mercado. Durante o caminho todo, comentários sobre nossa anfitriã. “Caralho, ela é velha pra porra”, eu disse, ao que fui logo tolhido da minha liberdade de opinar, pois eu sempre fazia isso de forma desmotivacional, o que equivale a dizer que os forçava a enxergar a verdade: que ela era uma coroa solitária, rancorosa e estranha e, o mais importante, descuidada. Eu exagerava um pouco, claro, mas se ela tinha duas filhas, segundo o Eduardo, que provavelmente estavam lá também, por que motivo se focar numa coroa mais rodada que uma puta velha? Mas eles não compartilhavam da mesma visão – diziam que iam tentar, especialmente o Carlos, que a essa hora já devia estar com porrilhões de pensamentos vagando entre os nervos do pênis e da espinha dorsal.

Nossa entrada foi permitida mediante o pedágio de um engradado de Bohemia (eles queriam impressionar), uma vodka Natasha, um suco Ades de laranja (para mim, que não podia beber) e alguns pacotes de Doritos – pensamos ser um grande investimento, mas o pior era ser um investimento de alto risco, pois nada dava a entender, ao menos pra mim, que a coroa liberaria pra todos ali na casa dela, assim de surpresa, àquela hora da madruga.

Ela foi perguntando um pouco de cada, se interessando pelo Fernando, logo de prima, que sentava-se ao lado dela num sofá de dois lugares – o Eduardo ela já conhecia: trabalhava como supervisor de telemarketing daquelas iorguteiras que eram vendidas pela TV pra coroas de classe média que nem ela. Fernando: trabalhava numa farmácia, cursava técnico em farmácia (só pelas vadias do curso, que deixou depois do segundo semestre, quando começaram matérias de fórmulas) e só. Carlos: ela se interessou pelo nego, que ainda tava no quartel. Túlio: trabalhava na padaria do pai, o Manoel – e eu, que não fazia porra de nada logo após ter saído do quartel e passava o dia a ler Henry Miller e uma porrada de outras merdas encontradas em sebos, me masturbar, fumar e esperar pelo Fernando para beber e comer algumas esfihas quando ele voltava do serviço.

Túlio estava sentado no braço do mesmo sofá que Nina, que vestia uma blusa leve de alça sem sutiã, uma calça cargo e sandálias rasteiras. Na cadeira ao lado, transversalmente, estava Carlos, pomposo, e na cozinha logo ali ao lado da sala estava o Eduardo, que colocamos como nosso serviçal para preparar caipirinhas e outras coisas. Eu estava sentado num pufe verde usando uma peruca (que na verdade era uma touca bem tosca) do Carlos – ela parecia um black-power loiro. Nina achou engraçado, mas se preocupou por eu ser o único a não estar bebendo e ser o mais calado. Começou com uma introdução estranha: “Você tem ascendência de algum povo da região do Oriente Médio ou do editerrâneo, Allan?”. Claro que não, respondi. “É que você tem traços parecidos e não bebe e tal, de qual religião você é?”. Ateu. “Hm, mas eu acho, assim pelo seu jeito, que você teve uma educação machista, não é? Você tá aí quietinho…”. “Ah, ele é assim mesmo”, respondeu o Túlio. “Entendo… mas acho que ele tá estranhando que uma mulher converse assim com vários caras, não é?”. Foi então que eu quase respondi que não, não, sua vaca, eu só tô quieto, caceta, sem beber – isso faz de mim um machista?

Bom, ela desencanou de mim quando voltou a questionar Carlos sobre coisas da caserna, como era o dia-a-dia dele naquele antro de viados, segundo a visão dela. Ela reforçou que conhecera caras que só subiram de patente nas forças armadas depois de terem liberado o cu pros altos escalões da exemplar hierarquia dessas instituições – era uma visão interessante. Carlos então disse que não pretendia continuar no exército, que estava, de fato, já procurando outras coisas. O quê? Ser garoto de programa ou ator de filme pornô – ele tinha um bom biotipo (citou de cabeça os vários lançamentos do entretenimento adulto onde só rola loirinha com negão) e que só lhe faltava um pouco de motivação. Todo mundo riu, claro, mas queríamos ver até onde ele levaria o papo. Enquanto isso, Túlio, que se apoiava no braço do sofá e no balcão que divisava a sala da cozinha, deixou estrategicamente próximo dele a garrafa de tequila, com a qual enchia as latinhas que Dona Nina largava no mesmo balcão, disfarladamente, pacientemente, sem alarde, pois se ela percebesse qualquer variação degustativa em suas papilas, já era; ela pararia de beber e nada mais de estratégia para facilitar a introdução ao felácio.

Ela de fato ficou um tanto quanto impressionada com as ideias de Carlos. A verdade é que ele só estava falando o que ela queria ouvir. De fato, muitas vezes ele já havia me passado essa ideia de que para se conquistar a simpatia de uma mulher, basta que se diga apenas o que ela queira ouvir – não confundir isso com declarações ou melação, mas realmente acatar a visão de mundo dela. Se ela diz que filhos são uma bosta, por mais que você ache bonito, diga que é realmente uma droga essas crianças catarrentas e chatas e tudo mais e ganhe, cada vez mais, a possibilidade duma foda grátis e casual, e depois, pé na bunda, nega.

Ela então começou a se soltar, talvez pela vodka barata misturada à breja, e começou a dizer que se arrependia de ter tido as filhas e se casado, que se fosse jovem, seria puta mesmo; e que estão certas essas garotas que fazem prigrama, ganham a graninha delas para comprar o carrinho, pagar a faculdade, fazer contatos pra arrumar um bom trampo e ficar sussa, sem se preocupar com dívidas e o caralho a quatro que a atormentava àquela época. Ela trabalhou durante um longo tempo numa imobiliária, agora cuidava de terceiridosos ricos e bem-aposentados dali da região – ganhava uma boa grana, mas lidar com Alzheimer e o caralho todo dava no saco dela. Concluiu fazendo um bom discurso de motivação para o plano de carreira do Carlos. A esse ponto já estava alta, porém percebia quando o Túlio lhe passava o braço cheio de intimidade e volta de seu pescoço, tirando-o com bufadas e algumas indiretas que de forma alguma desestimulavam o Túlio, mas ao mesmo tempo alta o suficiente pra não perceber o Fernando a zoar – ele fazia encenações fingindo que ia colocar a língua na orelha dela, encoxando, fingindo que dava tapas na bunda dela, como se ela fosse uma puta, fingindo que pegava o cabelo dela pra ela fazer um boquete e tudo mais – eu, que estava logo de frente, não me segurava de tanto rir.

De repente, desce pelas escadas um cara novão, todo bombadinho, sem camisa – todo mundo se olhou em choque. Mas que porra era aquela? Até que ela nos apresentou o cara: era o namorado de uma de suas filhas. Todos relaxamos. Depois disso, quando ela já estava bêbada, desceu uma das filhas dela, toda bagunçada a criatura, devia ter acabado de trepar com o cara e estava morrendo de sede – acho que perdi a conta dos copos d’água que ela bebeu. Na hora, porém, bateu um peso na consciência pelo fato da mãe dela estar daquele jeito, bebaça. Imagine, ela podia ser uma vadia, a Dona Nina, mas ali era uma casa de família – com que direito entramos numa casa de família com a intenção de embebedar e foder uma senhora debaixo do nariz de seus familiares? Foda-se, pensamos todos, e continuaram as tentativas: a essa altura ela já havia largado a cerveja e apenas fumava – já estava tão fora de si que sequer percebia quando o Túlio lhe enlaçava com o braço e pelo lado do pescoço descia a mão até seus seios. Foi então que eles se tocaram que ela não ia fazer nada, que devia estar assustada pelo número e que devíamos usar outra estratégia: ficavam dois de cada vez na sala – outro ia ao banheiro e outro ficava na cozinha, talvez dessa forma desse pra dar uma ideia e traçar a coroa. Eu fui ao banheiro, e isso foi tempo o suficiente para tudo virar uma zona. Felizmente não vi uma cena de sexo, felizmente. O barulho todo vinha da cozinha, na sala ainda estava o Eduardo, com a mão em volta do pescoço dela, tentando convencê-la. Fui até a cozinha, mas não cheguei à metade do caminho e quase caí no chçao de tanto de contorcer de rir: Túlio comia com uma das mãos todo o conteúdo de uma panela de pressão, que parecia conter uma mistureba de arroz, feijão e carne – quando perguntei a ele por qual motivo ele estava fazendo aquilo, eles respondeu de boca cheia: “Tô co mó fome”. Carlos estava com a garrafa de tequila, achei que estivesse enchendo um copo, mas quando olhei melhor, segurando um pouco a risada, vi que se tratava de um pote de vidro de conservas – ele derramou um pouco da vodka dentro da conserva e a colocou de volta na geladeira, quase deixando cair, tentando segurar a risada pra não fazer alarde. Ao mesmo tempo ouvi um pote de vidro cair, e Nina dar um berro da sala, mas sem aparecer – era o Fernando que, querendo surrupiar um pote de Nutella, a deixou cair por dentro da calça, mesmo assim não desistiu e a colocou de volta no bolso junto com dois pacotes de bolacha que encontrou no armário. Carlos continuava a preencher potes e embalagens diversas com a vodka; dessa vez era um pacote de batata-palha, que ele fechou com um pregador. Eu ria tanto que a barriga parecia que ia explodir, tanto que decidi voltar pra parte da cozinha que ficava junto à sala, me apoiando no balcão. Fiz a besteira de voltar na parte escondida da cozinha só pra ver o Fernando mijando dentro do fogão e Carlos derramando o resto da vodka no filtro de água. Desisti, não dava mais pra rir, eu ia ter um ataque cardíaco, decidi abrir a porta da sala e voltar pro carro, rindo pelo meio da rua como um retardado. Túlio me acompanhou, se apoiou no capô, rindo, rindo como a gente nunca tinha rido. Pedi a chave pra ele – então ele disse que ia voltar, eu não, eu ia ficar no carro. Carlos saiu também, veio até mim, descansou e voltou também, dizendo que ia tentar uma última vez.

Deitei no banco de trás, de modo a me esconder de qualquer viatura que passasse  por ali. Depois daquilo tudo, o que nos restou foi um pote quebrado de Nutella e um pacote de bolacha. Deitado no banco daquele carro, lembro que acompanhei calmamente, ao que parece ter durado uma eternidade, um avião passando lento e se perdendo entre as folhas da árvore e o azul escuro do céu.

09/04/2011

O amor é um meta-bem: é preciso estar apaixonado pela vida para aceitá-la além de bem e mal. Como é preciso estar além de bem e mal para estar pronto para amar!

Nossa filosofia é uma canção para os surdos, cantigas anestesiantes, tiros de canhão para mosquitos… Nossos soldados avançam um passo por crepúsculo – uma batalha por pôr do sol, uma vitória por crepúsculo, um tiro de canhão por dia. Nossas cantigas podem até paralisar os inocentes, aqueles que voltaram a ser jovens e arrogantes, aqueles que deixaram o peso da velhice moral para trás. Nossa canção é para os surdos – apenas dessa forma os que ouvem podem emergir dançando da multidão. Avançamos…

O homem desapredeu o amor à medida em que desaprendeu o assassinato. Um homem que não pode assassinar, que não desaprendeu a civilização e não se tornou novamente feral, não é espiritualmente profundo o suficiente para dizer que ama. É preciso sentir-se muito próximo de uma extinção eminente, da morte e do obscuro para poder ser capaz de alcançar a vida em seu âmago e amar a tudo e todas as crtiaturas. O ser que se arrasta pela vida, de coração pretensamente aberto e olhar desinteressado, o ser que não sente o assassinato e o fragor da morte, não pode ser capaz de elevar sua espiritualidade a um nível em que sente necessidade de lutar pela vida. Numa época em que o assassinato nos é negado mutuamente, nos arrastamos pela vida acreditando que esse refluxo dos instintos e paz de alma é amor. Isso faz com que matemos a própria vida como prova de compaixão por nosso próximo.

O homem nunca agradece verdadeiramente a vida que tem – a não ser quando esta lhe dá a possibilidade de acreditar possuir, num dado momento, uma “vida melhor”.

A música é a maior de todas as afirmações do Eterno retorno.

Se todos os mosquitos conseguissem retirar de mim uma gota de sangue cada, com toda certeza poderiam me deixar apenas pele e ossos. O pior som que pode representar a vida é o zumbido, o pior lugar é a selva – quanto mais adentramos, menos sabemos, pois menos ouvimos a nós mesmos.

Os assuntos mais sérios e  graves não nos pareceriam tão graves não fosse nossa própria gravidade.

Até o deus mais misterioso, grave, rígido e tirano pode ser motivo de piada se nele também faltarem a indulgência, o humor, a leveza e a embriaguez.

Numa época onde não se houve nada além de zumbido não poderíamos ser vistos como nada além de comida – nós, ou seja, a comida que ainda não morreu.

Dizer que a vida é, que a vida faz ou que pode fazer – tudo isso não passa de prosopopeia.

A árvore do precipício não deixa de ser amiga do precipício, da brisa ou da tempestade – são seus melhores amigos, conquanto a fortaleçam sendo seus melhores inimigos.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.